O fôlego de um ofício: a história de José Santos

Natural de Vila Chã de Sá, uma pequena aldeia próxima de Viseu, José Santos tem hoje 60 anos. Do seu avô paterno herdou não apenas o nome, mas também o ofício e o engenho. José tinha apenas 15 anos quando tentou fugir ao seu destino, mas a vida encarregou-se de lhe mostrar que, por mais voltas que tentemos dar, acabamos sempre por ocupar o lugar que nos pertence.

O avô de José, também ele, José Santos, começou por ser tamanqueiro: fazia os tamancos típicos que se usavam na época e vendia-os nas feiras. Quando estes caíram em desuso, passou a dedicar-se ao conserto de sapatos. O pequeno José, na altura com 6/7 anos, quando não estava na escola, encontrava-se junto do avô, a observá-lo com curiosidade, absorvendo naturalmente o ofício de sapateiro. Poucos anos mais tarde, quando o seu pai, Manuel dos Santos, regressou de França, dedicou-se ao mesmo ofício e perdeu a conta aos pares de sapatos que fez por medida. Naquela altura, José estava incumbido pelo pai e pelo avô, das tarefas consideradas “mais fáceis” como a de engraxar os sapatos. Mas, entretanto, o pequeno José cresceu e a adolescência bateu-lhe à porta: com 15 anos não achava muita graça “às ordens” que chegavam dos pais e foi se desinteressando pelo ofício da família. Num ato de rebeldia ou talvez de coragem, José fez as malas e, à revelia dos pais, apanhou um autocarro com destino a Coimbra, onde esperava encontrar outras oportunidades para a sua vida. Mas, rapidamente, o jovem José percebeu que tinha de se fazer valer do ofício herdado da família e arranjou trabalho na engraxataria do Sr. Quintas, na Rua da Sofia. Ali voltou a encantar-se pelo ofício de sapateiro: as máquinas começaram a aparecer, o trabalho já não era apenas manual, o que lhe dava mais gozo. Ali esteve durante dez anos e não se inibe de partilhar que o seu engenho deu um grande impulso àquele negócio, transformando uma engraxataria numa oficina de sapateiro. Mas José não escondia a vontade de ter algo seu e perante a ausência de um convite para uma sociedade por parte do patrão, José trocou a Rua da Sofia pela Ferreira Borges. Foi no primeiro andar do número 145, que abriu a sua própria oficina de sapateiro, a Super-Rápido.

 

Ao longo destas últimas décadas, José tem acompanhado e, também, sentido as alterações que a dinâmica do comércio local e tradicional de Coimbra foi sofrendo. Na Super-Rápido chegou a ter quatro funcionários a trabalhar com ele e, ainda, a esposa. E, imagine-se, apesar de serem seis, ainda tinha de ficar a fazer serões para adiantar o serviço. Hoje, é apenas ele. De vez em quando, a esposa aparece para dar uma ajuda essencialmente no atendimento ao cliente. José explica que só as dezenas de lojas encerradas na Baixa representam outras dezenas de funcionários que ali deixaram de fazer as suas rotinas e a tratar dos seus afazeres. Ainda assim, a verdade é que trabalho não lhe falta, só que em vez de justificar quatro funcionários, diz precisar apenas de um: “estou sempre aqui fechado, como um passarinho; chega um amigo e nem posso ir ali abaixo tomar um cafezinho com ele”, comenta. Já tentou arranjar ajuda mas diz que hoje não há jovens com interesse em aprender o ofício de consertar sapatos, “quer tudo ir para os direitos”, graceja.

Hoje os trabalhos “mais desafiantes” escasseiam. Já não se forram os sapatos de noiva com cetim, como antigamente, porque as modas mudam e as necessidades também. Nos bailes de gala, as jovens finalistas também já não fazem questão que os sapatos combinem com o tecido do vestido. O trabalho de um sapateiro, nos dias de hoje, passa essencialmente por consertar/alterar sapatos (mudar as capas dos saltos é o serviço mais frequente) e recuperar pochetes (carteiras de cerimónia). Contudo, José partilha que, nos últimos tempos, tem sentido menos desperdício e mais reaproveitamento; chegam ali muitos clientes para “ressuscitar” sapatos. Enquanto conversa connosco, por exemplo, está a fazer uma sola nova para uma sandália de uma “boa marca” espanhola. Começam a pesar nas pernas as 12 horas de trabalho diárias e em pé, mas diz que só deixará de trabalhar quando já não conseguir subir as escadas até ao primeiro andar. É o que nos diz a nós e às suas clientes “velhotas”, como carinhosamente as trata, que ali continuam a ir deixar sapatos e pochetes para arranjar.

A profissão corre-lhe no sangue. O pai de José, Manuel dos Santos, ainda teve o gosto de visitar o filho, por várias vezes, na sua própria oficina, na Super-Rápido. Admirava-se com as máquinas de acabamentos que faziam em dois minutos aquilo que fez, durante uma vida, em meia hora e à mão. José ainda teve o gosto de oferecer ao pai uma dessas máquinas, para que a usasse em Vila Chã de Sá, onde permanecem as suas bonitas raízes de sapateiro.

Quando perguntamos a José se acha que a sua profissão está em vias de extinção, não hesita em confirmar: “Caminhamos para um mundo cada vez mais descartável mas enquanto a moda não for andar descalço…” e nós acrescentamos “e ainda houver um ou outro sapateiro… o ofício está a salvo.”

 

Curiosidade sobre os Sapateiros:

Antigamente era comum o sapateiro encerrar à segunda-feira. Isto acontecia porque era o dia em que os sapateiros iam comprar material, até que os fornecedores passaram a deslocar-se aos estabelecimentos.

 

Horário: Segunda a sexta-feira, das 8:30 às 19:30.


Texto: NUVIDEIA

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