cinema
As Bodas de Deus
Ciclo Viva João César Monteiro – Medeia Filmes
€6 — €4
Longa-metragem que encerra a trilogia de João César Monteiro dedicada a João de Deus, figura central de Recordações da Casa Amarela (1989) e A Comédia de Deus (1995). Uma comédia de humor satírico e provocante onde são contadas as peripécias do marginal João de Deus, após um encontro afortunado com um enviado de Deus.
É o último filme da trilogia de João de Deus de, e com, João César Monteiro (seguindo-se a RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA e A COMÉDIA DE DEUS). No princípio, quando tudo parece perdido, duas sombras, as de Deus e do Enviado de Deus, encontram-se num parque solitário e uma mala cheia de dinheiro transforma o vadio João de Deus num distinto e milionário Barão… o que não o impede de acabar a cumprir pena na prisão, para onde é atirado por uma mulher que lhe rouba o "rico dinheirinho". E é na cela de prisão que tem lugar uma das mais arrepiantes sequências de AS BODAS, com João de Deus agarrado às grades numa desesperada fruição de Puccini. Outra, magnífica, é a da refeição de cozido no convento com João de Deus e a Madre Bernarda. O fim da comédia é anunciada no fim do filme por Joana, jovem resgatada das águas a quem, na prisão, João de Deus cita Bresson: “Que estranho caminho tive de percorrer para chegar até ti”.
João César Monteiro nasce a 2 de fevereiro de 1939 e morre a 3 de fevereiro de 2003. Em 1963, com 15 anos, recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar cinema na London Film School. Dois anos depois regressa a Portugal para realizar o seu primeiro filme, Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1971). Atualmente, o seu trabalho como realizador tem sido objeto de estudo para portugueses e estrangeiros, críticos e académicos, que o reconhecem como um dos mais importantes realizadores portugueses juntamente com Manoel de Oliveira. Várias das suas obras são representadas e premiadas em festivais internacionais como o Festival de Cannes e o Festival de Veneza: Silvestre (1981) foi apresentado no Festival de Veneza, festival onde regressa com Recordações da Casa Amarela (1989) e ganha o Leão de Prata. Novamente em Veneza com A Comédia de Deus (1995) recebe o Grande Prémio Especial do Júri.
Agora que os filmes de João César Monteiro estão todos digitalizados, num trabalho levado a cabo pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, é o tempo certo para que os espectadores portugueses possam voltar a ver de novo nas salas, em cópias restauradas, esta obra extraordinária, ferozmente livre e de uma coragem artística ímpar, de um cineasta singular e iconoclasta que marcou sobremaneira a arte portuguesa no último meio século.
E, sobretudo, para que uma nova geração possa descobrir a sua obra “incandescente”, e “desmedidamente genial”, como a descreveu João Bénard da Costa, irónica e incisiva, sempre a morder-nos os calcanhares, que começou com um belíssimo encontro com Sophia de Mello Breyner Andresen em 1969; deambulou pelos contos tradicionais portugueses, em filmes que vão beber aos nossos mitos primordiais e às suas grandes paixões cinéfilas; inventou um alter-ego chamado João de Deus e César vestiu-lhe a pele nas suas tragicomédias, onde, escreveu Victor Erice, “o sagrado e o profano, a alma e o corpo, Deus e o Diabo aparecem sempre juntos, indissociáveis, convivendo no mesmo plano sem passar pela peneira da moral estabelecida. Percorre-as um fantasma: o fantasma da liberdade, que aparece nelas como subversão radical da Realidade”; que escandalizou meio mundo da cultura deste país onde os homens / são só até ao joelho, como no poema de Cesariny, e que, por não terem grandeza, eles e o país, o quiseram encolher e encalhar por ter tido a coragem de, durante a rodagem de Branca de Neve, assumir que era outra coisa que o texto de Robert Walser pedia, e ter ousado um gesto artístico único, criando um “extraordinário filme da palavra sobre o écran negro”, como disse Manoel de Oliveira; até às “três horas de puro prazer”, de Vai e Vem (2003), filme derradeiro de uma lucidez extrema de um cineasta que “inventou” para si um lugar próprio no cinema, e que se estrearia em Cannes, já depois da sua morte.
Uma obra que, a partir de Silvestre (1981), estreado no festival de Veneza, desperta a atenção internacional. Foi o filme do seu encontro com o produtor Paulo Branco, com o qual faria depois O Último Mergulho (1992, festival de Veneza), As Bodas de Deus (1998, festival de Cannes), Branca de Neve (2000, Veneza) e o terminal Vai e Vem (2003, Cannes). De entre os vários prémios que recebeu, destacam-se o Prémio Especial do Júri para Recordações da Casa Amarela (1989) e o Leão de Prata – Grande Prémio Especial do Júri para A Comédia de Deus (1995). Os elogios internacionais multiplicaram-se, de Jean Douchet a Serge Daney, Jean Narboni, Frédéric Bonnaud, Philippe Azoury, Emmanuel Burdeau ou Roberto Turigliatto, dos realizadores Jean-Claude Biette, Otar Iosseliani, Victor Erice, Catherine Breillat, dos escritores Susan Sontag e Bernardo de Carvalho. Uma obra que continua viva, vista e revista. Recentemente, em Nova Iorque, o MoMA levou a cabo, com grande sucesso, uma retrospectiva, a que se seguirão estreias em sala nos EUA e Canadá, e ainda a edição DVD/BLURAY de todos os seus filmes e a publicação de um livro; em França acaba de sair, pela Potemkine, um coffret DVD/BLURAY com todos os filmes, e vários artigos na imprensa.
Parafraseando Manuel Gusmão, poeta e amigo de César, e que vemos no Quem Espera…, a propósito de Herberto Helder, poeta dilecto do cineasta: voltemos a estes filmes como quem tem a certeza que lhe trarão a incorruptível alegria de uma "inóspita beleza". — Medeia Filmes
Origem Portugal, França, 1998
Com Rita Durão, João César Monteiro, Joana Azevedo, José Airosa, Manuela de Freitas, Luís Miguel Cintra
Festival de Cannes 1999 Nomeado para o Prémio Un Certain Regard
Ciclo Viva João César Monteiro – Medeia Filmes
Cópias digitais restauradas
Estreia 5 de abril de 1999
auditório TAGV
duração aprox. 2h30
M16
⟿
Bilheteira / atendimento presencial
segunda a sexta-feira 17h00 — 20h00
em dias de eventos 1 hora antes / até meia hora depois
encerrada aos sábados, domingos e feriados